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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A TRISTE HISTÓRIA SOBRE O HOMEM QUE COMETEU SUICÍDIO


A sofrível vida de Oscar


“Enquanto você não tiver morte e gênese
será um turvo hóspede
do lado escuro”

J.W. v. Goethe


     Oscar não era apenas um rapaz comum como todos os outros de sua escola, ou de seu bairro. Não, ele era bastante especial. Desde pequeno Oscar mostrou-se um garoto extremamente precoce, adquirindo muito cedo o hábito pela leitura, impulsionado por não sei que obsessão cega por adquirir cada vez mais conhecimentos. Quando Oscar se tornou um adolescente, quase todas as pessoas já eram vistas por ele como estúpidas, e exatamente por isso começou a se tornar praticamente impossível para ele estabelecer amizades sólidas e, principalmente, relacionar-se com as garotas de sua idade. Na verdade Oscar era intratável até mesmo com as pessoas mais velhas, mas isso não era mais culpa d`ele, pois quando percebeu que estava ficando sozinho ele começou a esconder sabiamente seus conhecimentos e aspirações a fim de tentar ingenuamente se adequar aos parâmetros predominantes, mas as pessoas, apesar de estúpidas, facilmente percebem até mesmo inconscientemente quando uma pessoa é por demais inteligente e sagaz - mesmo ela se disfarçando de burra – e,  muito rapidamente, tratam de se afastar d`ela. E a verdade é que o mundo inteiro parece odiar aos gênios, inclusive Oscar se lembra claramente de um filme que ele assistiu há muito tempo em que o protagonista – irritado com os argumentos de um jovem garoto que o convencia de que ele estava errado – simplesmente lhe disse exatamente d`este jeito: “Ninguém gosta de espertinhos.” E é realmente isso. Ninguém, mesmo, parece gostar de espertinhos.



     E quando Oscar tentava conquistar as mulheres? Pensando mostrar a elas o que ele tinha de “melhor”, Oscar mostrava a elas que ele era um homem sábio, bondoso e gentil, ou seja, apenas o que ele ingenuamente imaginou como sendo as características perfeitas para um homem ter para cativar as mulheres. Ledo engano. Oscar sempre era trocado por homens inferiores, em todos os sentidos. Perdia para os mais feios que ele (sim, ele também era belo). Perdia para os ignorantes, e os mal-educados. Perdia até mesmo para os porcos, homens desleixados que não lavavam sequer os cabelos, e até mesmo tinham halitose. Oscar não conseguia entender isso, e todas essas derrotas para os “perdedores” foi revoltando-o, pouco a pouco, até que em um certo momento qualquer de sua vida ele já não era mais um rapaz confiante de suas qualidades e orgulhoso de suas capacidades e, sim, um homem amargo e rancoroso que começou a alimentar um desprezo tenaz pelo mundo inteiro, por ser renegado por eles ao ostracismo sendo que, na verdade, eles é que estavam errados chafurdando na ignorância e na mediocridade. Isso não era justo. Então o mundo, para Oscar, virou uma terra de idiotas que começou a ficar cada vez mais hostil, até o ponto em que ele definitivamente passou a se sentir totalmente excluído d`ele. E, então, Oscar se tornou uma pessoa má.



    Não vou entrar em detalhes minuciosos sobre os acontecimentos secundários de sua vida porque não irá haver nenhum tão importante em particular (o inferno está nas pequenas coisas), apenas darei parcos exemplos, como o fato de que até mesmo sua sorte parecia conspirar contra ele mesmo. O próprio destino parecia rir-se dele. Perdia ônibus, trens, aviões e reuniões por segundos de atrasos involuntários; Nos consórcios, quase sempre ele era um dos últimos a serem sorteados; E que dizer de concursos, então? Oscar invariavelmente perdia, e parecia muito pouco importar a falta de aptidão e/ou competência de seus adversários. Aparentemente, a única qualidade que parecia suficiente para qualquer um tomar a frente de Oscar era ser inferior a ele. Entrevistas de emprego? Das piores desilusões. Quanto mais qualidades ele demonstrasse, tanto mais desinteresse parecia demonstrar seus entrevistadores. “Ninguém gosta de espertinhos”. Essa era a frase maldita, para Oscar. A sua maldição.



     Até que, em um belo dia, Oscar decidiu o que parecia que não era apenas o que ele desejava, mas sim, o mundo inteiro: Acabaria com a sua própria vida. Primeiro, impulsionado pelo ódio, Oscar pensou em se matar, mas antes levando consigo quantas pessoas odiosas ele pudesse se vingar. Pensou, primeiro, em comprar uma arma e um estoque suficiente de munições e sair executando aos entrevistadores que não lhe deram emprego por se sentirem inferiores a ele. Depois pensou em colocar uma bala entre os olhos de cada imbecil que o venceu nas disputas amorosas, e de preferência na frente das próprias mulheres. Apenas depois de feito isso daria cabo de sua própria vida, não sem antes fazer bastante estardalhaço em público, com direito á polícia, repórteres de televisão e tudo o mais, para que todos testemunhassem o que o mundo fez a ele... Em quê o mundo o transformou. Mas, enfim, depois de meditar um pouco, terminou por decidir pelo simples e silencioso suicídio. Que se danem esses idiotas, a única coisa que ele realmente queria era finalmente desaparecer do meio d`eles. De uma vez por todas.





     Chegado o momento, Oscar colocou algumas balas no revólver (para o caso de a primeira bala falhar), escreveu um “FODAM-SE” bem grande, mas bem grande mesmo, na parede de sua sala, sentou-se em uma cadeira e, sem vacilar um segundo pra não perder a coragem, apertou o gatilho. O estouro da arma entrou em seu ouvido (junto com o projétil) como um gigantesco sino que badalasse dentro de sua cabeça, tudo ficou branco por um instante, depois preto, seu outro ouvido continuou ouvindo o zumbido causado pelo forte estampido por alguns segundos, e ele caiu com estrondo ao chão, sentindo um líquido viscoso e quente descendo pelo seu pescoço. Ficou, então, imóvel, com a indescritível certeza de que ele estava morrendo. A arma havia caído um pouco afastada dele, embaixo da mesa da sala, e ele estava de bruços. Mas ele não morria. E, acredite se quiser, ele não sentia dor alguma.


     Oscar abriu seus olhos e viu que ainda enxergava, e na verdade a única coisa que lhe havia acontecido com o disparo à queima-roupa que ele deu em sua própria cabeça era um estranho adormecer de todo o lado de sua cabeça onde ele havia efetuado o disparo, e nada mais. Levantou-se devagar, desconfiado e confuso, apalpou o ferimento (que ainda parecia sangrar, mas continuava dormente) e pensou em ir ao banheiro se lavar (estranho pensamento), mas quando ele põe-se de pé percebe que não está mais sozinho: Sentado em uma poltrona de sua casa uma pessoa desconhecida trajada de branco está, e parece calmamente aguardar que ele a veja, e fale com ela. E, de fato, ele fala:



- O que aconteceu? – pergunta Oscar, em choque.
- “O que aconteceu”? Você acaba de se suicidar, meu caro.
- Mas porque eu não estou morto? – pergunta, olhando para a grande quantidade de sangue que está em suas mãos.
- Porque você não estava vivo. 
- Como assim?
- Você não estava vivo. É normal você não se lembrar, mas você morreu há muito tempo atrás... Na verdade você nem ao menos se chamava “Oscar” quando isso aconteceu. Você apenas não se lembra de nada, e todo este tempo você imaginava que era vivo, que estava vivendo em um mundo “normal”, digamos... Mas não. Você não foi á lugar nenhum depois desse disparo, porque aqui não é o “mundo”, meu caro... Para irmos direto ao ponto, você está no inferno, Oscar.
- Inferno?
- Sim. O “seu” inferno, Oscar. Um inferno só seu.
- Mas o que eu fiz para estar aqui?!- ele esbraveja apavorado – O que eu fiz?!
- Você não fez nada de especial.- diz o estranho homem – Me entenda, Oscar, preste bem atenção ao que eu vou lhe dizer. Você não fez nada de especial. Eu vim aqui para lhe buscar, apenas, e não serei eu quem lhe dará as respostas que você quer. Nem as de que você precisa.
- Eu estou do lado de Deus! – grita Oscar com energia – Dá pra você entender isso?! Eu estou do lado de Deus! Porque ele me abandonaria neste lugar? Eu não fiz nada!


     O homem que está a falar com Oscar suspira e parece meditar por um instante. Então ele se levanta, agarra Oscar por um braço, e com bastante solicitude o leva a sentar-se no sofá. Ele, então, volta a se sentar na poltrona.


- O inferno não está em lugar nenhum, criatura. Este “inferno” onde você está trancado há tanto tempo que lhe fez pensar ser esta a “vida normal humana”, nada mais é do que um invólucro gerado por tua própria consciência alimentada pela culpa. – começa a explicar o homem, pacientemente.
- Quem é você? – pergunta Oscar, num súbito.
- Você pode dizer que eu sou um “anjo”. Não seria correto chamar-me “demônio” porque eu não estou aqui para lhe fazer mal.
- Culpa?
- Sim. Da mesma forma como você pode muito bem me chamar de “anjo”, podemos chamar toda esta ilusão de “inferno”, entretanto, ao mesmo tempo não estamos nem um pouco errados em denominarmos esta tua própria criação de “inferno” porque a função d`ela é justamente essa: A de atormentar a tua alma. A de fazê-lo sofrer.
- Mas eu não fiz nada!
- Sim, você fez. Em sua vida terrena você foi uma pessoa odiosa, “Oscar”, mas preste atenção agora, criatura, ninguém o condenou ao inferno. Deus não o condenou ao inferno.
- Não?
- Não, Oscar. Você mesmo se condenou, segundos após deixar tua vida terrena. Todos nós somos fagulhas desprendidas d`a Luz Infinita a que você denomina “Deus”, Oscar, e a parte de Deus que está dentro de você, a centelha pura e imaculada da Verdade Absoluta que é você mesmo, foi quem o condenou. Você mesmo se condenou. Sua própria consciência.
- Você é o demônio? – perguntou Oscar, ainda confuso?
- Não, Oscar. Não sou. Onde está o “demônio” neste inferno, Oscar? Você, alguma vez, já o viu? Digo, “pessoalmente”?
- Não... – ele responde, olhando para o chão.

- Você não o viu, porque esse “símbolo” não faz parte de tua formação, Oscar. Não fez parte de tuas fantasias, e nem de teus símbolos. Como você nunca foi uma pessoa, digamos assim, religiosa, você teve a (talvez) vantagem de sua consciência não ter te torturado com visões horríveis como essa, de demônios grotescos que fazem maldades com as pessoas. Acredite-me, Oscar, algumas pessoas têm a capacidade de gerarem “infernos” horríveis dentro de si mesmas, de fazerem Bosch, Blake e Dante parecerem ingênuos... – ele diz essas palavras com gravidade, parecendo buscar algo nos olhos de Oscar - O “diabo”, Oscar, é um fantasma. Um fantasma gerado pela maldade humana. De quem é a culpa de as desgraças que você viu quando estava vivo? Sim, eu sei, você não se lembra de sua vida, apenas d`essa sua fantasia horrível que você mesmo criou, esse mundo injusto e sádico onde você sempre perdia. Mas de quem é a culpa dos assassinatos? De quem é a culpa da fome? De quem é a culpa do ódio? Da maldade, enfim? Do “diabo”? Não, meu caro. A culpa é apenas dos homens. O diabo é apenas um símbolo d`essa maldade humana, que pode até mesmo ser visto como um “bode expiatório”. Está vendo? Até mesmo é, de fato, um bode. Mas entenda-me, não estou defendendo ao diabo, porque ele nada mais é do que isso: um fantasma. Onde terá o diabo poder, onde Deus está? Em lugar algum. Quando o diabo poderá destruir uma pessoa protegida por Deus? Nunca. Não tenha medo, Oscar, porque não há nada a temer em um universo governado por Deus. A única coisa que vossa mercê necessita, agora, fazer, é perceber, descobrir, porque sua consciência o torturou tanto. Diga-me, Oscar, o que, exatamente, sua própria consciência usou para te machucar?


     Oscar, então, explode em um forte choro, escondendo seu rosto com suas mãos. Ele fica por um bom tempo chorando forte como se fosse um garoto, e o estranho homem apenas espera calado, calmamente sentado ao seu lado. Quando Oscar parece se cansar de chorar, diz:

- Ela fez o meu próprio orgulho me massacrar – começa Oscar, surpreso pelo próprio súbito entendimento – ela transformou minhas próprias qualidades em defeitos em um mundo imperfeito onde eu não admitia perder. E eu me tornei em um fascista moral, capaz de matar aos que eu julgava serem inferiores como se eu fosse um nazi. E, então, todas as minhas qualidades apodreceram maculadas pelo rancor e pelo orgulho.

- O que você aprendeu, então, com tudo isso? – pergunta o homem, com curiosidade.
- Que a virtude que espera uma recompensa é uma virtude suja.
- Bom. – disse o homem – muito bom. Se você tivesse percebido isso antes de efetuar o disparo, teria saído d`esse teu pesadelo do mesmo jeito. Mas sem nenhum sofrimento. Venha, garoto, você já sofreu demais. Agora você precisa descansar e, depois, continuar a sua jornada por este nosso maravilhoso universo. Claro, quando você estiver preparado, e assim o desejar.
- Eu acredito em Deus. – diz Oscar, comovido – Eu acredito em Deus.
- Eu sei, Oscar. Eu sei.


Finis operis





“Percorrendo os sete infernos, vê o Paraíso.
Vá, ele diz
Você não tem nada a perder.”

Rose Ausländer

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Rose Ausländer

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A FÁBULA SOBRE O DEMÔNIO QUE QUERIA SER SANTO


inferno. [ Do lat. infernu.] S. m. 1. Rel. Lugar de privação definitiva da comunhão com Deus. Lugar onde se encontram os que morreram em estado de pecado, submetidos á repreensão divina.

demônio. [ Do gr. daimónion, pelo lat. daemoniu.] S. m. 1. Nas religiões judaicas e cristãs, cada um dos anjos caídos do inferno, sujeitos á Lúcifer ou Satanás.




“Para que tua felicidade não nos torture,
Você se cobre dos apetrechos do diabo...
De diabólica astúcia e indumentária.
Em vão! Pois em seu olhar
Reluz a santidade”
Friedrich Nietzsche



    Inferno. Lugar do terror absoluto, e povoado por apenas duas espécies distintas: os humanos mortos condenados por seus crimes contra a vida, e seus respectivos e eficientes algozes. Seus atrozes verdugos, conhecidos genericamente como demônios. Neste lugar horrível, apenas há lugar para a dor.


    Em um de seus mais cruéis departamentos (cujo nome omitirei por razões pessoais) encontrava-se um demônio da famosa casta dos Incubbus, que por mais uma das infinitas ironias deste nosso insondável universo possuía uma estranha, anormal propensão para a arte e a virtude. Sim. Acredite se quiser, este ex-anjo cuspido da Cidade de Prata havia por algum motivo qualquer cansado das sádicas diversões infernais, e agora - apartando-se de seus semelhantes - isolava-se para criar e compor.


    Sentado solitário em um canto onde não pudesse ser visto por ninguém, Plutus dedicava-se por horas a fio a escrever poemas com a vergonha de quem sabe que está fazendo algo abominável. Plutus era – para o horror de todo o universo – um demônio poeta. Suas tardes solitárias com seus papéis e sonhos foram durante muito tempo ignoradas por seus irmãos, até que seu olhar e trejeitos finalmente o denunciaram. Plutus já não era mais visto torturando ou enganando aos homens, e seu rosto há muito tempo já havia abandonado o semblante de rancor e zombaria que muito caracteriza sua espécie. Não demorou muito para que ele fosse motivo de comentários - no princípio, esparsos – entre os outros demônios até que, por fim, convencidos de que Plutus já não era mais um deles, reuniram-se em uma turba, lincharam-no eficiente e impiedosamente até quase matá-lo (só não o mataram porque os demônios não morrem), e abandonaram-no – ou o que sobrou da pobre criatura  - do lado de fora dos enormes portões do Pandemônio. E Plutus fora, assim, expulso do inferno pelos seus próprios irmãos.



    No princípio Plutus chorara muito, pois sabia que não havia lugar para ir. A Cidade de Prata, supostamente, jamais aceitaria de volta a qualquer decaído: até então nunca ninguém havia escutado falar de algum renegado que houvesse se arrependido e – perdoado por Deus e pelos seus soldados – aceito novamente, e retornado para lá. E só a idéia de encarar a algum Arcanjo ou Serafim de frente o deixava aterrorizado. E o único lugar do universo inteiro que ele um dia pôde chamar de “lar” depois de sua caída – o inferno – nunca mais o receberia de volta. Plutus chorava sozinho e sem esperança alguma, abraçado como uma criança aos seus amarrotados e encardidos papéis, seus poucos poemas que haviam escapado do linchamento com ele. Sua situação era a mais desditosa e cruel de toda a história da criação: era ele um fugitivo de Deus, e de Satanás. Suas lágrimas caíam sobre seus poemas, borrando-os, e seu choro baixinho e desesperançado não fora ouvido por ninguém. Plutus era, naquele momento, o ser mais solitário e desgraçado de toda a existência.



    Durante muito tempo o pobre demônio vagou errante pelas fronteiras de todos os mundos, sem poder estabelecer-se em lugar algum. Plutus naturalmente aterrorizaria a qualquer ser vivo que o enxergasse - por sua aparência naturalmente demoníaca - por isso ele mesmo tratou de evitar ser tratado com repugnância, ojeriza ou pavor pelos outros seres, mantendo-se eficazmente isolado de todos. Chegando ao mundo dos homens, buscou refúgio em uma inacessível floresta, passando seus dias de solidão alternados entre a profunda tristeza de saber-se incompreendido e injustiçado pela vida, com seus raros momentos de meditação, contemplação, e a criação de novos (e mais melancólicos que nunca) poemas.   

    Até que em um dia qualquer Plutus escuta uma voz humana no meio da floresta, e curioso aproxima-se dela. Com muita cautela para não ser visto, esconde-se por detrás de uma macieira e percebe que a voz que ouvira era a de um jovem rapaz que, ajoelhado, fazia suas orações. Tratava-se de um monge franciscano que - buscando sua santidade - havia se afastado do convívio com as pessoas, resignando-se a passar o resto de seus dias jejuando só, acompanhado apenas de sua fé e de suas orações. O pequeno demônio sabia da existência de monges, e muito bem sabia que havia encontrado a um jovem santo. Curioso e ao mesmo tempo maravilhado, Plutus passou dias e dias observando-o á distância, completamente admirado pelo fato de que aquele jovem homenzinho não parecia nem um pouco interessado pelos prazeres da matéria: comia apenas pão, bebia apenas água, e desinteressadamente passava seus dias louvando a Deus em suas diárias e metódicas orações. Nada mais, além de Deus, parecia ter valor algum para aquele rapaz.



    Com o passar do tempo – de tanto observar ás escondidas - Plutus não só já sabia de cor ao Pater Noster e todas as demais orações cristãs, como também havia aprendido com o jovem que a sua solidão não era algo tão terrível assim, pois era algo que o próprio monge também passava... e por sua livre e espontânea vontade. E com o passar do tempo ele também já havia absorvido todo aquele espírito de renúncia e compaixão que transbordava pela serenidade daquele homem de tal forma, que os pequenos animais da floresta que brincavam e acompanhavam ao monge - até mesmo os mais puros, como os pequeninos e frágeis pássaros, esquilos e borboletas – agora já aproximavam-se corajosamente também de Plutus, enchendo seu coração de demônio com uma ternura que ele jamais imaginou um dia ser capaz de sentir. E, pela primeira vez em toda a sua vida, o renegado Incubbu sentiu em seu coração o que os humanos chamariam de “felicidade”, e – arrependido amargamente de todas as atrocidades que cometera no passado – Plutus chorou copiosamente pela segunda vez em sua existência, mas esse era um choro bem diferente do anterior... Suas lágrimas, agora, eram de redenção. 



    Impelido pelos pequeninos animais (que agora até mesmo comiam de sua mão) Plutus, depois de muito pensar, decidiu que tentaria comunicar-se com o jovem santo. Tímido mas decidido, dirigiu-se á beira do rio a onde o rapaz sempre ia para buscar água, e sentou-se furtivamente a esperá-lo. Depois de algumas poucas horas de espera, o rapaz finalmente aparecera. Era chegado o momento.



    Quando o rapaz terminara de encher seus cântaros com água, o resoluto demônio saiu por trás da mesma macieira de onde ele havia se escondido em a primeira vez em que viu ao monge e aproximou-se devagar, até que o ruído dos seus próprios passos atraiu-lhe a atenção. Quando por fim o monge olhou para Plutus e viu que tratava-se indubitavelmente de um demônio, assustou-se de forma tão intensa que quase desfalecera, mas manteve sua postura e começou a tentar esconjurá-lo em latin, recitando rápida e fervorosamente suas sentenças.



-          Imploro-te, meu senhor, não tenhais medo – disse Plutus calmamente – não quero causar-te mal algum.

-          Vade retro, daemoniu – exclamou o monge, desesperado – “Não afastes de mim teu espírito de força, Senhor”...- começou a recitar, olhando para a sua cruz -  “não me deixes cair em tentação.”

-          Por favor, senhor, acredita.

-          Que ardis o trazes a mim, decaído? Serei eu tentado por vós da mesma maneira como o foi Jesus, em o Monte das Oliveiras? Perdes teu tempo comigo, infame embusteiro. De mim, nada poderás lucrar.

-          Senhor, não me trates dessa forma... Sei bem o que sou... mas quero que saibas que vejo-te há muitos dias, e não só respeito e admiro vossa empresa, como desejo servi-lo, acompanhá-lo... e aprender contigo a amar a esse Deus a que tanta fidelidade e carinho dedicas.

-          Como te atreves a proferir tal blasfêmia? – gritou o rapaz – como podes pensar que eu acreditaria em semelhante absurdo? Um demônio que quer aprender a amar Deus! Aterroriza-me pensar que espécie de indústria macabra estais a tramar com semelhante calúnia...

-          Como poderei convencer-te, ó santo e imaculado senhor?... Dou-te minha palavra de honra de que venho cá à vossa mercê de mui boa fé...


-          Jamais crerei em tuas venenosas palavras, Satanás – respondeu o monge com a voz trêmula, afastando-se de costas com seus cântaros de água, trôpego – sei que meu amado Pai permitiu que tu viestes a mim com o intuito de testar minha fé... e digo-lhe que não temo que me possas fazer mal algum, pois muito bem sei que Ele jamais me abandonará. Nada podes fazer contra mim, imundo, pois nenhum desejo carnal corrompeu meu espírito. Volta para o inferno pagão que o expeliu, monstro maldito.



    E, dizendo isto, o rapaz rapidamente desapareceu na floresta, deixando para trás um desesperançado semblante no rosto de Plutus. E, uma vez mais, seu coração estava dolorosamente despedaçado. 



    Depois desse diálogo com o jovem monge, Plutus nunca mais o encontrou. Ele mesmo não teve a coragem de aproximar-se novamente de onde o rapaz vivia, sabendo que isso não traria nada de positivo, e muito pelo contrário, apenas aumentaria o terror e a desconfiança do monge para com suas verdadeiras intenções. E pouca coisa é pior para uma alma bem-intencionada do que ser vista injustamente por todos, não importando o que faça.
Só lhe restou resignar-se com a sua situação da melhor maneira que pudesse.




    E assim foram se passando os anos, um após o outro, até que depois de muitas e muitas décadas de solidão Plutus havia se tornado um velho e solitário eremita de chifres, com uma longa e branca barba, e completamente apartado da inteligência dos homens. Depois de tanto tempo de solidão, já há muito tempo não era capaz de escrever uma palavra sequer, tantos anos em que havia ficado sem comunicação alguma com outro ser que falasse. Nem mais se lembrava de como escrevia seus belos poemas: todos os seus escritos foram largados ao chão naquele mesmo fatídico dia em que se aproximara de aquele jovem.


    Seus dias resumiam-se em beber água, comer maçãs, e fugir da aproximação de qualquer ser humano, para não passar pelo desgosto de ser visto como algo horrendo e maligno. Plutus agora temia encontrar-se com qualquer pessoa, santo ou ladrão, pois sabia que tal encontro só lhe traria novamente toda a dor de sua sina. Corria apavorado para a direção oposta quando escutava vozes, e escondia-se como um cão vadio.



    E como estava vivendo no plano material (na Terra), junto com o avanço de sua velhice sua saúde foi se desvanecendo, pouco a pouco, até que em uma noite escura qualquer - sem vento e sem lua no céu - Plutus deitou-se ao relento para morrer da mesma forma como passou quase toda a sua existência. Sozinho.


    E então, quando vira que chegava sua hora de partir, imagens de toda a sua infrutífera busca por uma vida nobre e pacífica, e toda a hostilidade que sofrera de todos os outros demônios - e dos homens - passaram de uma só vez por suas lembranças, e a certeza de que finalmente, com sua morte, todo o seu sofrimento e desesperança findariam, fez com que junto com seu último suspiro de vida rolasse em sua face uma única e solitária lágrima.
Solitária como ele. E Plutus morreu.



Epílogo

    Sua consciência desprendeu-se de seu velho corpo e subiu, fazendo-o olhar assustado para baixo e ver a si mesmo morto ao relento, em meio á escuridão da floresta. Viu pela primeira vez como seu corpo estava velho e disforme, mas quando olhou para si próprio (e não para o corpo material que jazia lá em baixo) viu que já não mais possuía aquele aspecto demoníaco de antes, e sim havia voltado para uma forma - tão antiga quanto bela - que um dia ele possuiu, há incontáveis milhares de milhares de anos atrás, quando possuía hermosíssimas asas brancas e habitava junto com outros anjos a maravilhosa Cidade de Prata. Como todos os outros demônios, um dia Plutus fora um dos soldados do Altíssimo, e agora talvez pela primeira vez na história de todo o universo Deus perdoara a um decaído, aceitando-o de volta ao seu antigo lar.
    Então Plutus decidiu que voltaria, uma vez mais, a chamar-se Mercyel, voou em direção ao alto até poder ver, ao longe, á Cidade dos Anjos, e perceber que lá uma grandessíssima celebração começava a ser iniciada - com a alegre participação de todos - e Mercyel então aproximava-se, quase certo de que sabia para quem toda aquela celebração estava sendo preparada, mas não chorou. A época das lágrimas havia terminado.


Finis Operis


“Nem sequer entrevejo o céu...

Meus olhos estão toldados de lágrimas.

O fogo do inferno é uma fagulha ligeira, comparado ás labaredas a devorar-me a alma.

O Paraíso é, para mim, somente um instante de paz.”


Omar Ibn Ibrahim, “Rubáiyát” (aprox. 1100 d. C.)






“...Eu gostaria de ser uma montanha.
Uma montanha enorme e verdejante.
Alcançaria as nuvens...
Magnitudes divinais.

Sou um escaravelho acostumado a altíssimas temperaturas...
Mas a minha alma ainda é verdejante.

Aquele que se destemer, e ir além,
descobrirá onde a música ganha sabor e cor...
E a tempestade esvairece.”




{fragmento de um poema branco feito por uma garota humana (R. C.), supostamente dedicado á Mercyel}





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