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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A FÁBULA DO ÍNDIO QUE ENCONTROU COM O DIABO

(escrito por Herácides Gimenez)



“Y el indio es como tortuga
de duro para espichar;
si lo llega a destripar
ni siquiera se le encoge:
luego sus tripas recoge
y se agacha a disparar.”

José Hernández, “Martin Fierro”


    Há dezenas de anos atrás - em meio á gigantesca e exuberante floresta amazônica brasileira - existia uma tribo (hoje extinta) chamada de “Jumas”. Como a maioria das outras tribos indígenas brasileiras, os Jumas tinham como principal meio de subsistência a caça e a pesca. Com a chegada do homem branco, toda a caça desapareceu em muito pouco tempo, graças á covarde eficácia das armas de fogo. Mas isso fora apenas o começo. O golpe de misericórdia para e completa extinção dessa tribo (e de numerosas outras mais) foi quando os garimpos clandestinos transformaram os rios amazônicos em uma asquerosa pasta vermelhenta de mercúrio, tornando impossível até para o melhor caçador de os índios poder enxergar alguma coisa debaixo d`água. Como essa tribo apenas conhecia a técnica da pesca com arco-e-flecha, não demorou muito tempo para os índios empeçarem a passar fome.

    Como o objetivo desta história é apenas contar sobre a vida de um jovem índio chamado Karé, não me estenderei mais em esses detalhes sobre a miséria e destruição de seu povo (que muito me revolta e me faz sentir envergonhado de fazer parte de os ditos “homens civilizados”), mas apenas concluirei com os dados sobre a destruição de essa tribo citando os outros “presentes” do homem branco, que inevitavelmente acabaram destruindo toda uma etnia humana: doenças venéreas provenientes dos prostíbulos da Europa (o índio conheceu a sífilis e a gonorréia sem nunca haver visto em sua vida uma cinta-liga francesa); bebidas alcoólicas (fundamental para enfraquecer o corpo e – principalmente - a moral); e toda a pompa material da modernidade - com suas roupas confeccionadas em cortes complexos e tecidos luxuosos - e seus pertences pessoais e demais objetos modernos, que demonstraram aos indígenas que eles já não mais eram apenas um povo vivendo na floresta, e sim homens seminus pobres, ignorantes e primitivos. Em comparação aos brancos, o índio era algo próximo de um mendigo.

    Karé possuía nessa época dezesseis anos. Claro que nem ele nem seus parentes poderiam saber disso, já que a contagem de os dias, meses e anos não têm utilidade nenhuma para um índio. Mas, claro, todos já haviam percebido (inclusive o próprio Karé) que ele já não era mais um curumim, e que já estava em boa época para começar seu treinamento para que ele pudesse se tornar em um bom caçador para sua tribo. Karé já sonhava em capturar sozinho a algum animal raro e gigantesco, para o orgulho de sua família e admiração de todas as mulheres. Quando ele crescesse e se tornasse um homem sua tribo jamais ficaria sem carne, e seus velhos e crianças estariam todos barrigudos e contentes. Sim... Karé seria um ótimo caçador. Seria o mais forte de todos.

    Karé pensava em todas essas coisas, quando de repente escutou um ruído. Desde a manhã (desobedecendo aos mais velhos) ele perambulava pelas cercanias de onde - havia pouco tempo - homens brancos haviam instalado mais um de seus malditos garimpos. Ele havia sido advertido incontáveis vezes pelos homens mais velhos para que jamais se aproximasse dos “brancos barbudos” mas – como todo jovem humano – Karé desobedecera movido pela curiosidade. Aproximando-se do ruído, Karé percebeu o que ele imaginou ser um lobo:

-          Aproxime-se, Karé, preciso falar com você.
    O jovem índio deu um grito e caiu de costas, espalhando suas flechas pelo chão. Mantinha por reflexo empunhado seu arco e - sem tirar os olhos do animal -   
 tateava desesperado pelo chão em busca de alguma seta. Karé estava completamente apavorado, pois podia jurar que ouvira o pequeno animal falar.
-          Você não está pensando em me disparar com essa arma, está, Karé? –
disse o animal (que na verdade – ao contrário do que pensava Karé – era um cachorro)
-          acalme-se, pequeno índio... estava á tua espera para falar-lhe, e nada farei para amedrontá-lo... prometo.
-          Um lobo que fala?... – disse Karé, pálido como um dos “barbudos”.
-          Não sou um lobo, pequenino. Sou um cão. Sou um dos três aliados do homem branco, e vim aqui para lhe falar. Quero que preste muita atenção a todos nós.
-          Todos nós?... – disse Karé, recompondo-se pelo tom tranqüilo do discurso do cão e olhando para os lados – “todos nós”, quem?
-          Escute com atenção, Karé: eu sou um cão. Sou o primeiro aliado do homem branco, e minha virtude é a lealdade. Vim para aconselhar-te: não acredite em a beleza das palavras, pois é em ela que mora as maiores mentiras. Nunca se esqueça disso, criança. – e, dizendo-lhe isso, o cão levantou-se e desapareceu na floresta, deixando Karé sozinho e calado.
    Depois de algum tempo, quando finalmente se recuperou, o jovem índio começou a rir sozinho, maravilhado. “Um animal falou comigo” pensava, estupefato. Mas nem teve tempo para conjecturar sobre isso, pois em seus pés aproximou-se furtivamente um pequeno gato negro.
-          Saudações, Karé. Tens, por acaso, alguma carne para invitarme? Estou faminta.
-          Quem é você, criatura? – disse Karé, a essa altura aparentemente já quase habituando-se a falar com animais – Parece-tes com uma onça, mas sois tão pequenino e negro!... És um filhote?
-          Oh... não seja bobo, Karé... não sou uma onça... – disse o gato, sem poder esconder que o engano o envaidecera – sou uma gata. Sou a segunda aliada do homem branco, e a minha virtude é a intuição. Vim precaver-lhe para que escutes ao teu coração, e não á tua mente.
-          Que dizes? – perguntou Karé, sem entender.
-          Digo-lhe que tomes cuidado com o que pensas. Nem sempre escolherás o melhor, pensando racionalmente. Conheces a Lua, Karé? – indagou a gata, esfregando-se carinhosamente em sua perna.
-          Sim. É a irmã do Sol.
-          “Irmã do Sol...” – repetiu a gata, pensativa e com certa ironia – a Lua é minha mãe, índio... aprenda com ela a ouvir teu coração. Adeus. – e foi-se, tão ou mais rapidamente do que o cão.
-          Espere! – gritou Karé, mas já era tarde. Só lhe restou continuar caminhando. E caminhou, até finalmente encontrar o que ele imaginou (acertadamente) ser o terceiro aliado do homem branco: tratava-se de um belíssimo animal que ele (talvez por ser ainda muito jovem) nunca havia visto. Era sem dúvida o animal mais bonito que ele já vira.
-          Olá, belo animal – disse Karé, aproximando-se – és muito bonito. Como te chamas?
-          Parece-me que já sabes que sou o terceiro aliado do homem branco – disse ele seriamente, analisando com curiosidade o pequeno jovem – sou um cavalo. Como terceiro e último aliado do homem branco, a minha virtude é a própria aliança. Vim aconselhar-te para que muito te acauteles com o tipo de barganha que tu fizeres. Lembra-te de que existem acordos que não podem ser desfeitos.
-          Lembrarei, lindo animal.
-          Se continuares a seguir por este caminho que te trouxe até mim, até nós, Karé, encontrarás ao imperador do homem branco – continuou o cavalo, com gravidade – tome muito, muito cuidado com ele, pequenino.
-          Imperador? – disse Karé, curioso – falarei, agora, com o chefe dos barbudos?
-          Sim – respondeu o cavalo – muito embora não seja de minha vontade que isso te ocorra. Por mim, te colocaria em minhas costas e te levaria para qualquer lugar do mundo que quiseres, apenas com a condição de que me alimentes, me dê de beber e escove meu pêlo. Mas teu destino é outro, filhote dos homens, e só me resta acatá-lo... por mais tristeza que isso me traz. – dizendo isso, virou-se e desapareceu a galope.

    E então - como o cavalo previra - Karé deparou-se com uma clareira em meio á floresta. Essa clareira tratava-se de uma estrada construída pelos homens brancos, e um homem vestido de negro fumava algo, sentado ao lado de onde uma estrada se dividia em três. Ele estava parado em uma encruzilhada. No ar, Karé sentiu um desagradável cheiro que lembrava á peixe em decomposição, e pairava ao redor uma opressiva atmosfera psíquica de rancor, angústia e solidão.

-          Olá, Karé... chega mais perto para falar comigo. – disse o estranho “homem”.
-          Você é o imperador dos homens barbudos? – disse Karé, cautelosamente.
-          “Imperador”?... – perguntou o homem, desatando-se a rir vulgar e estrepitosamente – quem foi que te disse isso, criatura? – disse ele, recompondo-se.
-          Um animal grande chamado “cavalo” – respondeu Karé – e ele parecia não gostar de você...
-          Sim, sim... – respondeu o ser com a mão em seu queixo, pensativo - quer saber quem eu sou, pequenino? Quer saber o meu nome?
-          Sim.
-          Sou o Demônio. Satã é o meu nome. Sou o primeiro dos caídos, criança... e, com certeza, também serei o último. – disse o diabo, com orgulho.
-          “Primeiro dos caídos”... – disse Karé, sem entender – o que significa isso, Satã? Não és o chefe dos homens brancos, como dissera o cavalo? Que fazes tu, afinal? – perguntou Karé. Como qualquer outro índio que não tivera contato com nenhum branco cristão, ele não conhecia o demônio. Jamais ouvira falar sobre ele. Satã, percebendo-se disso, pôs-se a rir ainda mais convulsivamente do que antes. E Karé, como não sabia com quem estava lidando, continuou o diálogo naturalmente e sem o menor receio. Para sua desgraça, ele já se havia esquecido dos conselhos dados pelos três animais.
-          O cavalo te disse a verdade, pequeno. Sou eu o imperador de o reino dos homens, e estou aqui para fazer-lhe um convite. Caberá a você aceitá-lo... ou não.
-          Pois então fale, Satã.
-          Não tens medo de mim, Karé?
-          Deveria, eu, ter?
-          Apenas escute, meu jovem: estou aqui para lhe oferecer um pouco de meu poder. Através de mim, poderás ser o maior caçador que já existiu. Que tal lhe parece?
-          De que forma, Satã? – perguntou Karé, sem disfarçar sua curiosidade – por acaso sois alguma espécie de pajé?... Sois algum tipo de feiticeiro?
-          Oh... oh... oh... – o demônio quase não conseguia se conter, surpreendido pela ingenuidade do índio – sim, Karé, sou um feiticeiro. E sou, também, de todos, o mais poderoso.
-          Podes me converter em o maior caçador destas matas?
-          Em verdade te digo que posso tornar-te em o maior caçador que já existiu... ou irá existir.
-          E que queres em troca?
-          Não muito... Apenas que ofereças teu corpo para mim, quando morreres.
-          Apenas isso? – disse Karé, desconfiado.
-          Sim.

    Súbito Karé lembra-se de instantes atrás, e de todas as conversas que tivera até então. Lembrou-se do cão que lhe dissera para não acreditar em belas palavras, da gata que lhe aconselhou a escutar sua intuição, e do cavalo que lhe preveniu sobre fechar acordos. Um arrepio percorreu sobre sua espinha, fazendo-o repensar.
-          Não estou interessado, Satã – disse Karé, resoluto – mui respeitosamente agradeço tua oferta, mas temo que irei recusar.
-          Não acreditas que tenho poder para dar-te o que te estou a afirmar, garoto? – perguntou o demônio, com exagerada e quase afetada soberba.
-          Não é isso – respondeu o rapaz – fizeste-me uma pergunta, e lha estou respondendo: minha resposta é não. Não estou interessado, senhor. Não, mesmo.
-          Pois muito bem – disse o diabo, levantando-se – estarei á tua espera... para quando mudares de idéia.

    E então o demônio desapareceu. Karé voltou para sua aldeia, e nada disse para ninguém a respeito das suas aventuras. Sentia uma enorme vontade de dividir seu segredo com alguém, mas achou melhor guardar tudo para si. E assim o fez.

    Os anos se passaram, e Karé tornou-se um índio forte e bonito. Admirado pelas mulheres, Karé também era respeitado pelos outros caçadores, que sentiam orgulho de fazer parte do mesmo grupo de caçadores do qual ele também estava.

    E tudo estava indo bem, até finalmente chegarem às proximidades de sua tribo os homens brancos com todas as suas desgraças. Os rios tornaram-se poluídos (os índios não sabiam que era mercúrio, e imaginaram ser sangue), e quase toda a tribo (principalmente os mais velhos) começou a ficar doente. Sarampo, rubéola, caxumba, varíola - e uma infinidade de outras doenças que atravessaram o mar - derrubaram os índios como frutas podres. Os poucos que restavam já não encontravam mais animais para caçar, nem peixes para pescar. Muitos dos índios aprenderam a beber com os brancos, tornando-se alcoólatras. Foi tudo muito de repente. Em pouquíssimo tempo toda a sua linda tribo transformou-se em uma vila indígena feia e miserável, com crianças órfãs morrendo de fome, e os poucos sobreviventes reduzidos a mendigos bêbedos, ou loucos. Foi tudo muito rápido. Um dia Karé despertou e percebeu que - de toda a sua tribo - só restavam ele e duas velhas índias. Todos os seus companheiros e familiares estavam mortos. Todos.

    Na última tarde de sua vida Karé recolheu as flechas que afiara pela manhã, apertou o nó de seu arco, e saiu para caçar a refeição para ele, Baru e Inté. Atraída pelo odor de sangue de o animal que Karé havia caçado, uma magricela e faminta onça abocanhou-lhe o pescoço, e Karé caiu para morrer. Estava tudo acabado? Não.

    Súbito Karé abre novamente seus olhos, e percebe que está novamente em aquela estrada, sente o mesmo cheiro de peixe estragado, e aquele senhor de altivo e terrível aspecto que se denominava “Satã” estava mais uma vez á sua frente, sorridente. Karé olhou para si mesmo e viu que ainda era um garoto. Tudo o que ele vivera desde aquela tarde em que encontrou os animais, até o momento de sua morte, havia sido apenas um sonho. Mas fora tão real!...
Karé chorava, confuso, até que o demônio lho interrompeu, dizendo-lhe:
-          E então, Karé... que tal lhe parece teu destino?
-          Meu destino? – perguntou, confuso.
-          Sim. O que vistes não fora apenas uma ilusão. Trata-se de teu futuro. Vistes exatamente como as coisas sucederão... a menos que faças o trato comigo.
-          Se fizer o trato contigo, nada daquilo sucederá? – perguntou Karé, atônito – de quê forma?
-          Da forma como tu quiseres, criatura. A mim não me importa o que pedires. Poder, magia... escolhe o que quiseres. Posso matar aos brancos que representarem perigo ao teu lar... posso tornar tua gente imune ás doenças... posso dar-te qualquer coisa que quiseres. Até mesmo mudar esse teu desgraçado destino. Tudo o que tens a fazer é entregar-se a mim, depois de tua morte.


    Karé lembrou-se de tudo: Das crianças deformadas pela varíola, do gemido dos velhos moribundos, dos gritos das mulheres que restaram, abandonadas e famintas. Toda aquela desgraça passou por sua mente, fazendo-o cair de joelhos em lágrimas, sem poder se conter.
-          Não, não, não... nada daquilo pode acontecer... eu imploro... nada.
-          Quer dizer que aceitas meu trato? – perguntou o diabo.

    Karé enxuga suas lágrimas e olha para o perverso ser. Percebe, então, que aquele asqueroso cheiro que sentia provinha dele. Lembra-se de os animais, e do conselho que - desinteressadamente - lhe deram. Karé lembra-se da lua: O que diz seu coração?
-          Não. – Diz Karé, olhando diretamente para o demônio.
-          Como?
-          Minha resposta, mais uma vez, é não.
-          Tens certeza disso, mortal?
-          Sim.
-          Como quiser.

    O demônio vira-se para trás e – aparentemente - sai caminhando normalmente. Quando Karé vira-se instintivamente para outro lado e torna a mirá-lo, o demônio se havia transformado em uma espécie de redemoinho que girava furiosamente, até desaparecer por completo. Karé voltou para sua tribo completamente abalado - sabendo de tudo o que aconteceria - mas aceitou seu destino. Escutara seu coração, e ele lhe havia dito para que assim o fizesse.

Epílogo


   Karé realmente vivera tudo do mesmo jeito como o demônio lho havia mostrado. Tudo. Entretanto, em seu coração havia uma espécie de resignação, alguma coisa misteriosa que era como uma sensação inexplicável de que tudo teria um propósito, ou de que ao menos tudo poderia ser recompensado – ou explicado - por algo, posteriormente. Não obstante, Karé passou o restante de sua vida perguntando “por quê?”: Por que sua tribo teve de ser dizimada? Por que tantos inocentes morreram de forma tão cruel? Mas, evidentemente, Karé ficou sem entender tudo isso, até o derradeiro momento de sua morte. Até o derradeiro instante em que ele fora abatido por aquela onça.

    Karé fechou os olhos, lembrou-se do demônio, e sentiu muito medo. Medo de que ele aparecesse novamente com mais uma das suas propostas. Mas ele não apareceu.   
    Mas nenhum ser vivo poderá saber para onde Karé foi, ou com quem se encontrara ele, depois de sua morte. Ninguém fora testemunha de tal fato.
    Mas qualquer ser humano - seja ele índio, preto ou branco – perceberá que - mesmo depois de todo esse sofrimento - ainda há lugar para - em meio á floresta - os pássaros cantarem alegremente ao nascer do Sol:

Como uma não-verbalizada promessa de que nem tudo está perdido.
Como uma sutil mensagem de esperança.

Finis Operis.





“Para Dios tu vida de um segundo vale por décadas enteras;
para El no existe el tiempo, y solo valora el sufrimiento.
Ven a celebrar la fiesta de Todos los Santos con nosotros.”

Marcel Scwob, “El Zueco”




“Hush, little one...
it`s not so terrible.
Just let go of the flesh...
of the pain.
Fear not... for the universe is kind.”
Allan Moore, “Southern Change”

POR QUE EU NÃO GOSTO DE FUTEBOL


“É de rolar de rir.”
Stephen McPeterson

Queridos amigos, hoje falaremos sobre um assunto que quase todos vocês – como bons brasileiros (ou argentinos) que são – irão adorar: hoje o nosso tema de dissertação será o futebol. (aplausos entusiasmados de todos)
Como de praxe, iremos analisar de forma semiótica-pragmática esse grande esporte nacional, e tentarei - na medida do possível, e de meus modestos conhecimentos - fazê-los entender os motivos de meu total desinteresse em acompanhá-lo como um torcedor.
(“é isso aí, Saides, mostra pra eles!”, grita alguma moça entusiasmada, no fundo da sala)

Bom, começaremos pelo princípio: (risadas gerais de todo o público) O futebol, antes de mais nada, é um esporte. (“claro”, “óbvio”, escuta-se pela sala) E – como esporte que é – trata-se de uma prática física metódica destinada a exercitar ao corpo e relaxar a mente de quem o pratica...
(algumas garotas – que não parecem estar prestando a menor atenção ao discurso – começam a gritar “lindo, lindo, lindo” em coro)

Pois bem, chegamos agora á primeira incógnita deste assunto: de que forma exercitaremos nosso corpo atuando como meros espectadores? (“blasfêmia!”, gritou algum ousado no fundo da sala, que logo foi dominado pela segurança) Chegamos á minha primeira máxima (por favor a todos, prestem muita atenção):

ESPORTE É PARA SER PRATICADO, E NÃO PARA SER ASSISTIDO.

(aplausos escandalosos – principalmente do público feminino – e a segurança leva minutos para conter ao público)
Calma, calma, peço a vocês, por favor, que não se exaltem – não por agora – e me esperem continuar com meus ousados argumentos. Entre nossa sociedade humana, ouso dividi-la de maneira sucinta – e generalizada – em apenas duas categorias: As pessoas que fazem, e as pessoas que assistem. (“você é o nosso herói, meu amor”, diz uma voz feminina ao fundo) Pois bem... As que fazem, são as que constroem e modificam ao meio, e as que assistem, apenas – no melhor dos casos – sabem criticar. Chego agora á minha segunda máxima que, aliás, dou grande ênfase por sofrer em minha própria pele suas conseqüências nefastas:

SE VOCÊ NÃO É CAPAZ DE FAZER MELHOR, VOCÊ NÃO TEM AUTORIDADE PARA CRITICAR.

(“o que você está fazendo, então, espertinho?”, alguém grita, para logo ser dominado pela segurança e posto para fora)
O que eu estou fazendo? O que eu estou fazendo é criticar ás pessoas que NÃO praticam esporte, apenas assistem - com suas barrigas enormes – e com o traseiro quadrado de passar o dia inteiro sentado em frente ao televisor. (agora os aplausos tornam-se ensurdecedores, e leva-se um tempo até o público novamente se acalmar. Uma anônima garota beija Saides á força, deixando-o encabulado, mas sorridente)

Bem, como acredito que se estendermo-nos ao esporte como um todo não terminaremos este assunto tão cedo, vou direto ao assunto principal em questão: falemos, finalmente, sobre o Futebol. (forma-se um coro de “Saides, Saides, Saides” no meio do salão, e subitamente uma linda garota desmaia, para logo ser socorrida)

Primeiro de tudo, sempre me perguntei: onde está o “interessante” em uma esfera de retalhos costurados de couro entrar em uma rede?
(“seria mais interessante jogarmos com a sua cabeça!” grita alguém, para logo depois ser atacado pelo público feminino e ter que sair correndo para não ser massacrado)
E o pior de tudo, e o mais intrigante: por que se grita, logo após que a esfera se introduz no tal arco, a palavra GOL?!... Gol? Que diabos é “Gol”? (forma-se um tumulto, pessoas começam a se empurrar, gritos contra e a favor do discurso, e Saides pára até o povo novamente se acalmar)

Tudo bem, admito que esteja sendo um tanto quanto jocoso em meus devaneios... Voltarei a falar – á partir de agora – com toda a minha seriedade e – acima de tudo – imparcialidade. Mas aviso-lhes agora que entrarei – implacável e soberbamente - no terreno mais árido d`este assunto, e com total e absoluto destemor:
(“pára de ser lindooo” grita alguém – aparentemente uma mulher)
O assunto, agora, serão os clubes futebolísticos. (vaias e aplausos se misturam em um completo forfé, fazendo com que Saides pare - por alguns segundos - para sorver um pouco de café.)

Temos muitos clubes de futebol, uns mais famosos, outros nem tanto, uns mais competentes, e outros menos. Cada um desses clubes possui um nome, um símbolo, uma seqüência predominante de cores, e um hino. Pois muito bem. Mas, além de tudo isso, cada um desses clubes possui seu mais precioso bem: seu querido – e fiel – público. (aplausos gerais de quase todos os presentes) Eu digo mais importante, mais precioso, porque seu público é tão particular, tão fiel, quanto todas as suas características supracitadas. Um torcedor - como um hino ou um símbolo - é para sempre. Pois muito bem. Agora, senhoras e senhores, o que me dizem de seus jogadores? São eles tão fiéis quanto seus torcedores? NÃO! Se temos um craque, já sabemos que ele logo mais mudar-se-á para a Europa.

Temos um artilheiro este ano, que no ano passado jogava no time rival. Todos os bons jogadores brasileiros sonham em algum dia jogar para os estrangeiros. Quem vai me dizer que não? Última máxima:

QUE SENTIDO FAZ EM SE TORCER POR UM TIME, QUE NA VERDADE É UMA COLETÂNEA, UM AMÁLGAMA DE EX JOGADORES RIVAIS?

Sabe, seria o mesmo que assistir á uma missa católica rezada por um pastor evangélico
(“desculpe, pessoal, o padre não pôde vir... bom, onde está o Santíssimo Sacramento?...”, neste momento Saides começa a caricaturar alguém), ou á uma igreja evangélica celebrada por um hare-krishna. (alguém começa a rir sozinho no meio da platéia, e todos se viram pra olhá-lo, que cala-se amedrontado e sem saber o que dizer.)

Eu não tenho medo de dizer a verdade: NO FUTEBOL, SÓ O PÚBLICO É FIEL. Quanto aos jogadores, o critério é o dinheiro, (instala-se um mórbido silêncio na sala)
e digo, sem medo de ser feliz, que quase todos os jogadores são putas. (instala-se novo tumulto) É isso mesmo. Quem é que trabalha restritamente pelo dinheiro? Mercenários e putas.
Sabe, eu quero ver um time – por pior que ele seja tecnicamente - em que todos os seus jogadores (como os torcedores) sejam fiéis até a morte.

Sonho com o dia em que surgir um time inteiramente formado por profissionais que estejam jogando até mesmo SEM NENHUM TIPO DE REMUNERAÇÃO, apenas pelo amor á camisa, e apenas pela fidelidade ao seu querido, amado, time.

Nesse dia, meus caros amigos, nesse miraculoso dia (Saides aumenta seu tom de voz) eu pegarei meu pandeiro, minha timba e minha camiseta, e serei o mais fanático dos torcedores, pois saberei que estarei torcendo por um time formado por homens honrados e leais,

E NÃO POR MERCENÁRIOS INTERESSEIROS.

(um grande silêncio se instaura em todo o salão, Saides fecha o canal de seu microfone e sai sem se despedir. Ao longe, alguma garota chora copiosamente)

Finis


esporte. [ Do ingl. sport ] S. m. 1. O conjunto dos exercícios físicos praticados com método.

futebol. [ Do ingl. football ] S. m. 1. Jogo esportivo disputado por dois times, cujo objetivo é fazer entrar uma esfera dentro de um arco defendido pelo time adversário, e na qual é vedado aos jogadores , exceto ao goleiro, tocar essa esfera com a mão.


*

UM POUCO DE SEXOLOGIA: HOMENS VS. MULHERES




“- Pois não tenhas pena, amigo Sancho– respondeu Don Quijote – que te sacarei das mãos dos caldeus, quanto mais de as da Irmandade. Mas dizei-me por tua vida; Tivestes visto mais valoroso cavaleiro que eu em todo o descoberto de a terra? Tivestes leído em histórias outro que tenha nem tivesse tido mais brio em o acometer, mais alento em o perseverar, mais destreza em o ferir, nem mais manha em o derrubar?”
Miguel de Cervantes Saavedra



Sempre quando penso sobre qual seria a principal diferença entre o homem e a mulher, vem-me á cabeça uma teoria que desenvolvi já há algum tempo (e que até hoje em dia me parece fazer sentido) de que seria a forma como cada um deles enxerga o mundo exterior e – principalmente – as outras pessoas. O homem, em sua natureza paradoxalmente racional e instintiva; e a mulher, em seu mundo particular dos sentimentos e intuições.

Como se fosse um simples fantoche, o homem quase sempre se deixa dominar (e enganar) por seus próprios instintos animais: desenvolve tendências violentas e homicidas muito mais do que as mulheres (basta comparar o número de presidiários masculinos com femininos para se ter uma visão óbvia), e entrega-se muito mais facilmente a seus próprios vícios (mulheres alcoólatras e viciadas em drogas ilícitas são uma minoria drástica, em comparação aos homens). Ou seja, os homens que supostamente utilizam muito mais seu hemisfério esquerdo (o solar, que é onde encontramos a razão, a lógica) são muito mais propensos a cometerem sandices violentas e irem para a cadeia. Como isso? Para quê serve essa predominância “racional” nos machos da espécie? Para fazê-los projetar armas de calibre e alcance espetacular? Para desenvolverem a teoria da massa multiplicada pela velocidade da luz - descobrindo o princípio da fusão nuclear - para então explodir com uma cidade estrangeira, matando todos os seus habitantes (uns instantaneamente, outros lenta e dolorosamente)? Você consegue imaginar uma mulher presidente dando ordens para que velhos e crianças sejam mortos? Você já viu (ou ouviu falar) de uma mulher sozinha assaltando alguma loja?


O quê Nagasaki fez de tão horrível para o mundo, para todos os outros países permitirem que essa cidade inteira fosse massacrada por uma explosão nuclear? Hitler nasceu em Hiroshima? Sobre essas duas cidades simplesmente fora lançado um bombardeio atômico, matando de forma deliberada e intencional seres humanos inocentes e incapazes de se defenderem. Avôs e avós, vizinhos, carteiros, padeiros, padres, crianças, gatos, policiais, bebês... Quando um homem mata outro ser humano, condenamo-lo á prisão e dizemos que ele é um assassino. De que forma chamar um ser humano capaz de utilizar-se da sua autoridade como presidente para matar milhares de desconhecidos inocentes que não haviam cometido NENHUM CRIME? Se matar uma pessoa inocente é uma coisa hedionda, o que seria, então, matar centenas de milhares de inocentes, de uma só vez?

Apertar um botão não é o mesmo que enterrar uma lâmina afiada em alguém. Não. O botão matará a uma distância segura. Segura o bastante para quem apertá-lo não ouvir nada: nem a explosão, e nem aos gritos das vítimas. Segura o bastante para não sujar suas mãos. Aliás, as guerras ultimamente estão cada vez mais apresentando esse favoritismo covarde: o país privilegiado belicamente massacra invictamente aos seus inimigos com um “exército” de mini-aviões e tanques de guerra controlados á milhares de kilômetros de distância por controle remoto. Sim. E continuam chamando a isso de “guerra”, e se orgulham depois em dizerem que não tiveram quase baixas em seus exércitos. De que forma terem baixas, se seus “soldados” estão covardemente sentados em um simulador, á centenas de milhares de kilômetros? Depois que o homem inventou a pólvora e, subseqüentemente, fora inventada a arma de fogo, o mundo encheu-se de “covardes corajosos”. É muito fácil ser “corajoso” enquanto se empunha um portátil disparador de projéteis á longa distância. E Hitler, Bush e Clinton, se tivessem sido jogados em meio aos terríveis campos de combate que eles próprios criaram, com certeza se esconderiam apavorados como galinhas no primeiro buraco que encontrassem.

Essa é a natureza masculina predominante. Olha-se apenas para as subseqüentes estatísticas... apenas para as aparências. Dois homens disputam o amor de uma mulher, mas um deles é um “cavalheiro” á moda antiga, reservado e gentil, e o outro é um típico falastrão cínico e mentiroso, que diz o tempo inteiro galanteios e comentários picantes. Tente adivinhar quem ficará com a “donzela”... Por que será que, mesmo não tendo essa natureza primitiva e grotesca que os homens têm, as mulheres parecem querer que eles assim o sejam?
Não consigo ver sentido em isso. Os homens são sujos e vulgares, e as mulheres (que não o são) adoram. Choram como tontas pelo canalha, e riem do ingênuo apaixonado. E, alguns anos depois, tornam-se as mães-solteiras amargadas que dizem que “os homens não prestam”. Típico.

Voltando para o começo, ambos se diferenciam pela forma como cada um enxerga o mundo e as pessoas. Os homens, por exemplo, quando olham para uma mulher, olham superficialmente – e diretamente – para ela. Olham para o seu corpo (instintivos e vulgares que são), principalmente para seus seios e nádegas, e só depois analisam o restante. Mas também olham para seu rosto, para sua voz, para seus trejeitos, gostos e pensamentos. Ou seja, olham diretamente para ela. A mulher, por sua parte, parece olhar para os homens por “ricochete”, ou seja, a mulher não parece olhar diretamente para o seu pretendente; antes, parece olhar pelos olhos das outras mulheres, e pelos olhos dos amigos de seu alvo em questão. A mulher parece olhar para o homem pelos olhos da sociedade em que eles vivem, e vê de que forma ele é visto, e o que acham dele. Todas comentam sobre ele? Todas querem ficar com ele. Mesmo sendo um canalha mentiroso engravidador.


Acho triste tudo isso. As mulheres têm o destino do mundo em suas mãos, por serem elas que carregam em seus ventres os futuros seres humanos (sejam eles homens ou mulheres). E, ingênuas e emocionais que são, quase sempre se deixam ludibriar, iludir pelo típico “macho” com ereção. Deixam-se enganar (e engravidar) de forma quase consciente por ridículos sem-vergonhas depravados. São, para elas, “garanhões”, “conquistadores”. Preferem os feios porque acham os belos “femininos”. Preferem os canalhas porque acham os românticos “chatos” e “pegajosos”. Preferem os burros porque acham os inteligentes pedantes e inacessíveis.
Só existem covardes espancadores de esposas porque existem as mulheres que permanecem casadas com eles. Só existem canalhas “comedores” insensíveis, porque a demanda por eles é imensa. As mulheres poderiam mudar o mundo se o quisessem. Poderiam começar ensinando suas filhas a valorizarem-se mais, entregando-se somente á quem as fosse valorizar também, e não apenas “comê-la” como um chimpanzé, para depois partirem para outra “conquista”. Se os homens “vulgares”, “asquerosos”, existem, o são porque o mundo está cheio de “mulheres” para recebê-los.

DER ÜBERMENSCH




“A natureza deu chifres ao touro... E ao leão, o abismo dos dentes.”
Anacreonte, sec.VI a.C.


Qualquer um que tenha lido e estudado de forma concisa e eficaz as obras clássicas foi modificado - em maior ou menor grau - em seu modo de ver e interagir com o “mundo real”, com o universo... com o que todos conhecemos sencilhamente como “vida”. Posso dizer com convicção de que eu sou uma dessas pessoas.

Leitor assíduo, desde minha adolescência sempre gostei de colecionar dois tipos de livros: obras de autores consagrados da literatura, como “Hesse”, “Marques”, “Dostoievski”, “Camus”, “Sartre”, e muitos outros - cujo prazer que sinto ao lê-los seria apenas dificilmente expresso através de palavras... E obras sobre “magia”, “ocultismo”, etc etc...

Acredito que o meu interesse pela magia desde minha tenra idade se deva – salvo a uma inata propensão de minh`alma – aos fatos ocorridos em minha infância com relação a um tumor cerebral que tive, e a todo o sofrimento que tal fato inevitavelmente me fez passar, tanto em termos de dor física, quanto de traumas psicológicos advindos da mutilação estética, e do confronto direto com a morte.

A morte, aliás, sempre esteve presente em minha vida depois de minha vitória sobre o câncer, e a cada vez ela se me apresentava com cada um de seus muitos aspectos: às vezes como uma doença súbita e devastadora, outras um acidente automobilístico inesperado e fatal, ou outras um “ser humano” com índole assassina... De todas as vezes em que nos defrontamos, o embate era sempre o mesmo: rápido e feroz, mas também conciliador. Usando de metáfora para exprimir o inexprimível, quase sempre tive a impressão de que a morte era como um terrível e infalível samurai, que sempre ao se deparar comigo me atacava furiosamente com suas Katanas, mas apenas para desferir-me um potente golpe que sempre passou a milímetros de mim, como para fazer-me sentir o quão próximo ela sempre esteve - e sempre estará - até o embate inevitável e final. Em todas as vezes em que passei por perigos mortais e sobrevivia, vitorioso, inevitavelmente era obrigado a repensar meus valores: e analisar a minha vida. Isso sempre me fez muito bem. Posso arriscar a dizer que quase me acostumei a ela. Quase.

A principal armadilha a que todos os que têm uma percepção “além” dos fatos cotidianos substanciais pode cair, mesmo em termos de posição de valores, ou “sentido da vida”, é a de que TUDO É VÁLIDO... Nada se perde, tudo se transforma em uma correnteza linear, concisa, estável, fluídica, infinita e, acima de tudo, IMPARCIAL. Ou seja, o Paradoxo-mor da filosofia hermética é que tudo o que contém e/ou está contido em sua constituição é parte tão importante e/ou complementar como tudo o mais. Um átomo, um pósitron, um quark, uma nebulosa, uma supernova, um ser humano. Matar ou morrer...

Até onde será que vai nossa percepção plena sobre a vida, sobre o que nos circunda? A linha entre o que seria um hábito ou sentimento normal, e uma obsessão ou paranóia, é tão tênue quanto a linha entre o sensual e o lascivo. Uma das coisas que mais me intriga é que tenho certeza de que minha visão sobre os fatos de minha vida é espantosamente influenciada pela minha própria personalidade... Como eu gostaria de saber como as pessoas realmente me vêem, e o que dizem sobre mim quando não estou por perto. Existem muitas, muitas coisas que ocorrem nos bastidores, e chega a me assustar pensar na possibilidade de que posso estar enganado sobre a maioria das pessoas que conheço, e sobre o que realmente pensam de mim, e em como as pessoas realmente me vêem: Como um herói, ou como um vilão? Como uma pessoa conveniente, ou como um desagradável? Isso porque já presenciei vários casos de conhecidos que apresentam um determinado desvio de personalidade peculiar (como mitomania), e nem desconfiam de que são tão caricatos, de que é tão evidente que estão fantasiando ou distorcendo algo. Como as codornas, que quando espreitadas se abaixam e ficam imóveis - sentindo-se invisíveis - mas na verdade estão tão à mostra que se tornam umas presas exageradamente fáceis, bem mais do que se elas corressem por suas vidas.

Seres humanos... ás vezes chego quase a pensar de que por mais que eu possua um corpo mortal (com pele, músculos, ossos e nervos, os “enxofres fixos e voláteis” de Paracelso), de que mesmo assim eu não sou tão ridiculamente previsível e patético quanto a maioria, e chego até a afirmar que se eu fosse tão risivelmente idiota quanto eles eu estaria lendo e estudando mais para compensar, mas acho sinceramente que pra mim, chega de estudos...Quase ninguém entende o que eu escrevo.

Mas parece que as coisas estão melhorando ultimamente... Fora o fato de que minha casa está com a água cortada a mais de uma semana, de que fui despedido a três dias atrás, de que o maldito encanamento do esgoto está todo destruído e de que supostamente tenho uma espécie de verme astral se alimentando da minha alma (de acordo com um dito "pai de santo" que visitei por repentina curiosidade) tudo parece ótimo.

 É isso que é o mais estranho: Não me sinto tão mal diante das atuais circunstâncias, e isso está começando a me preocupar. Isso pode significar duas coisas; Ou estou me imunizando às merdas cotidianas e perto de atingir o Zen, ou perto de ter um colapso nervoso e acabar causando danos de natureza estrutural permanente em o próximo infeliz que cruzar meu caminho quando eu estiver de mal humor.

Há alguns meses atrás um delinqüente qualquer teve a infeliz idéia de tentar uma abordagem extorsiva á minha pessoa, logo depois de eu ter percebido que haviam cortado a luz de minha casa por atraso no pagamento. Detalhe: Nesse dia, eu estava particularmente de mal humor. Apenas concluo dizendo que graças á essa força desconhecida que permeia o Universo que aquele pedaço de lixo ambulante conscientizou-se de que não seria nem um pouco saudável para sua integridade física medir forças para comigo. Acho que ele percebeu pelo meu olhar e pela maneira com que fui andando convicto para sua direção de que eu realmente estava com muitas más intenções...

Se tem uma coisa de que eu particularmente gosto é da justiça vingativa, quando estou furioso. Pegar algum “espertinho” me sacaneando quando eu estou revoltado... Descontar toda a minha raiva de uma forma útil, ou seja, batendo em algum motherfucker. Acho que é por isso que eu gostava tanto dos gibis de super-heróis quando eu era moleque: Adorava ver aqueles fantasiados com a cueca em cima calça melhorando o mundo na base da porrada, socando o desgraçado que batia na velhinha, ou a gangue covarde que perseguia o garoto ingênuo de família, enfim, se eu fosse um super-herói eu confesso que iria adorar arrebentar a cara de todos os vilões que eu encontrasse. Mas eu acho que, que nem o batman, eu não seria capaz de matar. Claro que numa situação de vida ou morte as coisas seriam diferentes... Para defender as pessoas que eu amo, então, seria mais fácil ainda. Tenho quase certeza de que mataria com minhas próprias mãos a criatura que tentasse violentar ou matar alguém que eu amo. Mas também tenho a convicção de que nenhum ser humano continua o mesmo depois de ter tirado alguma vida humana, e por isso mesmo espero passar por esta existência sem ter que passar por esse pesadelo. Será que na guerra, depois de ter atirado em pessoas que estavam longe o bastante para serem apenas “alvos móveis”, perde-se esse medo de matar, de se tornar mais um “selvagem”? Um amigo meu que era policial disse que todos os seus colegas que haviam matado eram diferentes, como se levassem a marca do assassinato estampado em suas caras. Como se carregassem escalpos. A “marca de Cain”. Eu já vi o olhar de pessoas que mataram outras pessoas, e digo que ao mesmo tempo em que fiquei horrorizado com aqueles olhos, sentia ao mesmo tempo uma ansiedade compulsiva, quase que um desejo de livrar o mundo de pelo menos um perigo, exterminando aquele “mal elemento” de alguma maneira (de preferência, bem dolorosa para ele) e livrando o mundo de pelo menos um estorvo á evolução humana. Estranho isso. O brilho no olhar do assassino me dava quase uma vontade de matá-lo.

É, nossos sentimentos são as nossas armadilhas. Há de se ter bom senso nessas horas. Depois de consumado algo irreversível, nem Deus pode te ajudar. É, acho que é melhor desistir de querer ser um super-herói. Afinal de contas, só nos filmes existe final feliz.

*

COMO ACREDITAR EM DEUS, ESTANDO TÃO PERTO DO FIM DO MUNDO?

Deus. Quem viu Deus? Maomé? Arjuna? João Batista? Sidarta Gauthama? O que é “Deus”?

Deus. [ Do lat. deus.] S. m. 1. Princípio supremo considerado pelas religiões como superior á natureza. 2. Filos. Princípio supremo de explicação da existência, da ordem e da razão universais, e garantia dos valores morais.

O homem – como todos os outros seres viventes - sempre será – e sentir-se-á como – um animal gerado por algum outro. Um descendente. Todos os seres, sem exceção, tiveram um “pai”, uma progênie. E o homem, como animal racional que é, inevitavelmente indagará onde tudo realmente começou. Se formos acompanhando ao raciocínio lógico e nos estendermos até a origem de tudo, chegamos á pergunta final: quem – final e definitivamente – é o criador desse “tudo”? E então o homem criou a palavra deus.
Fiat Lux
O homem precisa de Deus. Precisa de Deus para dar um significado para as coisas – aparentemente – sem significado algum. O homem precisa de Deus para que o universo tenha sentido, e não seja apenas um caos orgânico “complexamente simples” desprovido de uma moral. O homem precisa de Deus para sentir-se seguro, sabendo que, no final de tudo, todo o universo está sob o controle titânico de uma força justa, benéfica e invencível, e que nada será perdido... nada será em vão. E o homem precisa de Deus, acima de todos os fatores supracitados, para continuar a viver; Mesmo sabendo da inevitabilidade da morte.

Sem Deus o homem inevitavelmente veria todo o universo – inclusive a si mesmo - como imparcial, neutro, em termos morais. E sem a luta entre o bem e mal, não existe a virtude.

virtude. [ Do lat. virtute. ] S. f. 1. Disposição firme e constante para a prática do bem.
[ Opõe-se a vício (2) ]

Sem Deus, não há como saber se a batalha pela “justiça” e pelo “caminho correto” da evolução (aparentemente empreendida pelo menos por uma minoria dos seres humanos) será vitoriosa, visto que Deus é – pelo menos em teoria – “onipotente”. Sem Ele, os “mocinhos” já não podem estar tão certos de terem seus esforços justamente recompensados, ou até mesmo de terminarem vitoriosos, no final de tudo. E, finalmente, sem Deus o homem saberá que depois de sua morte ele simplesmente deixará de existir. Como uma relez árvore ressecada... como um animal atropelado na beira da estrada. Sem Deus as coisas ficariam bem mais complicadas...
Mas o mais estranho de tudo isto, para mim, é pensar que se pararmos para pensar como um ateu e negarmos a existência de Deus, inevitavelmente direcionaremos essa “fé” – ou crença - para outro lugar: para a mente humana. Ou seja, se para um ateu nada disso existe (Deus, espírito, céu e inferno, etc etc.), pelo menos uma coisa ele não poderá negar: a existência da mente, do milagre do pensamento imaterial, o universo particular de cada ser pensante e fonte de seus desejos, medos e sonhos. Pois bem. Á partir do momento em que vemos, então, a mente humana como – supostamente – a única coisa neste universo sob o controle do homem, o ateu inevitavelmente deverá concordar que tudo o que a humanidade conquistou em toda a sua história deveu-se pura – e simplesmente – á ela. Sua mente. E, se com isso, dizermos também que tudo o que afirmamos existir em termos abstratos (virtude, verdade, justiça, bem e mal) fora criado por ela - inclusive o próprio “Deus”- inevitavelmente afirmaremos a sua existência de qualquer forma. “Crença é poder”. E, então, cria-se o paradoxo que – para mim – torna inconsistente negar a existência d`Ele, pois mesmo se hipoteticamente Deus nunca tivesse realmente existido como uma inteligência absoluta e autoconsciente, e tivesse apenas sido “criado” pelo homem para sentir-se respaldado e reconfortado nessa batalha diária que é a “vida”, o homem – criando-O e acreditando em Ele dia após dia – torna-Lo-ia real e válido – quase – da mesma forma. Deus criou o homem, ou fora o homem que criou Deus? Não importa, eu diria. Agora ele já existe, de qualquer forma.
Sempre acreditei – e penso que sempre acreditarei – que existem coisas que podem (e devem) ser focalizadas e utilizadas da mesma forma, indiferente de sua autenticidade ou não. O maior exemplo disso é a “virtude”. Mesmo se o universo for uma criação espontânea desprovida de valores morais e Deus não existir, a virtude continuará, para mim, como uma das criações humanas mais dignas de menção e relevância. Os princípios morais de quase todas as religiões, por exemplo, focam em um comportamento pacífico e compreensivo para com o próximo. Por mais que nem sempre essa conduta “tolerante e pacífica” seja posta em prática (basta vermos o Oriente Médio e o sionismo), sua teoria é válida e coerente. Da mesma forma, acreditarmos que este nosso universo é regido por uma inteligência benéfica e que o homem (como o ser senciente que é) tem o dever de participar ativamente em seu desenvolvimento evolucionista, é deveras saudável e digno.

Em meus sonhos e esperanças individuais, dentro de minha “alma”, sinto e interajo com esse universo não mais o vendo como “Deus”, e sim sentindo-o apenas como uma eterna correnteza fluídica inexorável e irresistível. Essa correnteza, para mim, segue da esquerda para a direita, e de baixo para cima. Tudo - sem exceção alguma - é levado, arrastado por Ela, visto que Ela “É” tudo. E “TUDO” começou em as trevas, para então essas próprias trevas serem, finalmente, preenchidas pela luz. Pois as trevas são os espaços vazios destinados a serem preenchidos. Todos os seres vivos estão sendo arrastados por essa correnteza. Todos.
Mas por mais que tivermos – e temos – seres que se desviem dessa correnteza e que tentem fluir ao contrário – para a esquerda e para baixo – todo e qualquer esforço empreendido por esse ser “rebelde” minúsculo e solitário não só será penoso, como infrutífero. Por mais que algum ser se desvie – deliberadamente – de essa correnteza absoluta, será apenas questão de tempo para que ele – finalmente – seja vencido, ou pela simples exaustão de “remar” infinitamente ao contrário de Tudo, ou por finalmente sucumbir á uma força muito superior á ele. Nada pode alterar o sentido de Essa correnteza. Nada pode barrá-la. O ser que, rebelando-se, estiver fluindo ao contrário, apenas estará atrasando o seu próprio desfecho inevitável - e único - em direção á “Luz”. Por alguns anos... ou talvez até por algumas centenas de milhares de anos. Quem sabe? Para um universo calculado em “anos-luz”, “milhares de anos” trata-se de uma quantia irrelevante demais para fazer alguma diferença. Quem sabe, para a humanidade faça...

UMA INTRODUÇÃO AOS OBJETOS MÁGICOS EGÍPCIOS


“Em o vestíbulo do horizonte, fiz Eu quatro boas coisas:
Fiz os quatro ventos, para que todo homem possa respirar como todos os demais.
Este foi Meu primeiro ato.

Fiz a grande inundação, para que o homem pobre tenha direitos sobre ela,
da mesma forma que os ricos e poderosos.
Este foi Meu segundo ato.

Fiz a cada homem igual ao seu próximo, e não lhes mandei que fizessem o mal,
senão que foram seus próprios corações que violaram o que Eu disse.
Este foi Meu terceiro ato.

E fiz com que seus corações não esquecessem da Morte,
para que fossem feitas as divinas oferendas aos deuses.
E este foi o Meu quarto ato.”

Alegato ao imperador egípcio Amen-em-het, Dinastia X (aprox. 2100 a.C.)


    A serena e misteriosa Esfinge fora durante muitos séculos um mistério para a civilização moderna, mas na verdade trata-se apenas de uma variante de uma espécie de magia, feitiço, muito comum naquela época antiga. Principalmente em Kemet – terra mais conhecida como “Egito”.

    Em Kemet - mais do que em qualquer outra civilização - fora muito comum o uso de totens e estátuas em sua magia cerimonial. Vemos essas estátuas mágicas também em quase todas as outras civilizações primitivas, desde as pré-ibéricas como as astecas, maias e incas, como também em muitos outros lugares longínquos, como os “Moais” da Ilha de Páscoa, o “Stonehenge” da terra dos druidas, e até mesmo os pequenos bonecos de cera usados pelo Voodoo do povo da pele negra. Mas nenhum de todos esses povos utilizou-se tanto da magia – e, conseqüentemente, de seus “totens” – como os egípcios.

    Durante o período áureo da feitiçaria egípcia (que os tornaram – com seus sacerdotes bruxos - temidos até pelos mais perigosos soldados inimigos), era prática comum entre a aristocracia egípcia (leia-se “faraós”, horrível barbarismo difundido pela ignorância do povo egípcio iletrado á partir da Dinastia XIX, visto que a tradução exata da palavra faraó seria “Palácio Real” ou, literalmente, “Grande Casa”) construírem opulentas, magnânimas sepulturas a fim de exibirem para a posteridade seu poderio financeiro possuído em vida. Vemos em muitos livros escritos por “especialistas” que os tais “faraós” foram “enterrados com seus tesouros e bens pessoais, para que eles pudessem utilizá-los em sua vida após a morte”. Mas a verdade é que quase todos os objetos pessoais do cadáver eram inutilizados antes de armazenados (a arqueologia egípcia chama a isso de “matança de peças”) para não poderem ser usados também por possíveis saqueadores de tumbas, prova cabal de que tal alegação não passa de uma das centenas de “romantizações” baratas perpetradas por curiosos amadores e por “egiptólogos” sonhadores. Seus objetos pessoais foram preservados em suas sepulturas pura e simplesmente como exemplos á posteridade de suas “faraônicas” riquezas, e de sua cultura. Mais para frente o leitor paciente descobrirá o quê realmente estava destinado a acompanhá-los em sua pós-vida.

    Como o tema principal desta pequena semiótica é a esfinge, falarei sobre a magia egípcia apenas sobre o que diz respeito á quatro de seus mais famosos fetiches mágicos: ela mesma, a Esfinge; os famosos escaravelhos egípcios de Khepri construídos em cerâmica (ou pedras preciosas, como lápis-lazúli ou abscediam); os - mais conhecidos pela egiptologia séria – Ushabtis; e, por último, seus terríveis Anathemas.

    Quando H. Carter descobriu Thoth-Ank-Amon (que depois passou a ser “Tutankamon” para melhor viabilizar o merchandising de souvenirs), a civilização moderna ocidental teve contato com a única múmia egípcia encontrada intacta e ainda com grande parte de seus tesouros. Por mais estranho que possa parecer, por todos os milênios em que “Tutankamon” permaneceu enterrado, não fora visitado furtivamente pela madrugada por mais nenhum grupo de saqueadores (depois de dois pequenos saques, com o último deles talvez pego em flagrante), muito embora a história ter demonstrado que quase todas as tumbas egípcias foram invariavelmente saqueadas, e muitas vezes por ex-funcionários (ou parentes de), e muitas vezes a pedido de seus próprios ex-sacerdotes. Junto com todas as demais corrupções políticas que já existiam naquela época (e muito bem articuladas, por sinal, em grande parte graças ás “boas” influências romanas), a compra e a venda de produtos dos saques de tumbas chegaram a se tornar a mais promissora e lucrativa fonte de renda do mercado negro egípcio. Por que “Tutankamon” não fora totalmente roubado? Para depois tentarmos decifrar a esse “enigma esfíngico”, falaremos agora sobre os escaravelhos.

    Os escaravelhos – como os escorpiões - são aracnídeos muito comuns no norte da África. A antiga civilização egípcia talvez tenha adquirido particular afeição por esse pequeno ser por ele ser inofensivo (não possui presas, ferrão ou veneno, podendo ser manipulado até mesmo por crianças), e por seu instinto peculiar de perpetuação de sua espécie: Como para construir seu ninho o escaravelho utiliza-se do esterco, o egípcio concluiu que estava aí um exemplo perfeito tirado do próprio universo para a eternização do ciclo de vida e morte, visto que a partir de uma matéria orgânica “morta” o pequeno animal gerava nova vida. Ainda pela observação do pequeno animal carregando bolas de esterco, o egípcio imaginava que - da mesma forma - Khepri também carregava a esfera do Sol, que durante a noite havia abandonado a Terra para iluminar o reino dos mortos. Os escaravelhos eram seres solares por excelência. Com isso, para o antigo egípcio, os escaravelhos eram talismãs vivos, representativos perfeitos da eternidade do ciclo da vida. Com o passar do tempo os escaravelhos tornaram-se parte da cultura egípcia na forma de variadas coisas, como símbolo pictórico hieróglifo (sua significação hieroglífica é a palavra “tornar-se”), sinete comemorativo, talismã mágico de proteção, e – principalmente – como o coração do Ka de sua respectiva múmia.

    Uma das crenças do povo religioso egípcio era o de que todo ser humano possuía dois corpos etéreos (não-materiais): sua própria alma – chamada por eles de Ba, e seu “invólucro”, que além de lhe dar sua aparência estética que depois seria imitada por seu corpo físico (ou será que era ela que imitava o corpo?), também era onde ficava armazenado o ego de seu dono (com sua personalidade, caráter, etc) chamada de Ka. Como os egípcios acreditavam que sua alma constituía-se em essência apenas pelo Ba, enquanto que o Ka tratava-se apenas de uma imitação “descartável” do corpo físico e da alma de seu dono, seus feiticeiros tiveram a idéia de aproveitarem o Ka (significa “duplo”) da mesma forma como o homem moderno utiliza-se de um cão de guarda. Para fazerem isso, os embalsamadores (o principal deles era chamado pomposamente de “o controlador dos mistérios”) precisavam extrair o coração da múmia, substituindo-o pelo escaravelho mágico: a idéia era impedir o Ba de voltar a unir-se ao Ka e a seu antigo corpo físico. Depois de realizados seus respectivos rituais, a alma (Ba) do falecido já não mais habitava seu corpo e havia se desprendido (libertado?) de seu Ka, que - através do talismã-escaravelho – ficava então aprisionado em sua múmia. Era como se a partir de então o corpo mumificado ainda estivesse com sua própria alma, mas na verdade o que permanecera nela era apenas seu “duplo”. Esse duplo (Ka) é uma cópia tão fiel de seu Ba que até mesmo “ele” próprio pensa se tratar do próprio “faraó”: conseqüentemente, ele fará de tudo para impedir qualquer ladrão de saquear “seus” tesouros, ou mesmo interromper “seu” descanso. O sentinela - ou guarda-costas - ideal.

    Aliás, um fato muito interessante desse bizarro fenômeno místico é que pouquíssimas pessoas seriam capazes de “ver” a esse “fantasma”. A maioria das pessoas - quando adentrasse em essa respectiva tumba – apenas sentiria sintomas variados em intensidade e gênero, desde um simples enjôo ou tontura até sintomas maiores, como uma súbita sensação de pânico e/ou perseguição. Poucas são as pessoas que seriam capazes de visualizar a esse Ka fantasmagórico. E o mais estranho de tudo isso é que na verdade o Ka nunca passará do que ele realmente parece ser: um simples fantasma. Ou seja, como ele não é formado por matéria (como entidade não-plasmada que é) ele não representa ameaça física alguma para sua vítima. E como ele constitui-se apenas do Ka residual de seu ex-dono, ele nem mesmo é um espírito real. Por mais que “ele” mesmo pense se tratar de um.

    Entre os europeus há uma expressão que define muito bem essa espécie de fenômeno: Poltergeist. De acordo com essa concepção parapsicológica, tanto um Poltergeist quanto um Ka tratam-se apenas de “rastros” do espírito humano, como se fossem “moldes”, “pegadas” sem uma alma real. De acordo com tal teoria, uma casa assombrada por fantasmas na verdade não está “habitada” por ex-seres humanos, mas apenas pelas energias residuais de seus sentimentos mais intensos, como rancor, arrependimento ou medo. Geralmente, esses sentimentos intensos residuais são gerados por mortes violentas.

    E, voltando ao “enigma esfíngico” de a tumba de Tutankamon não haver sido totalmente violada (de acordo com Carter, ela “quase foi, e por duas vezes”), penso ter sido devido ás punições a que teriam sofrido seus saqueadores pegos em flagrante: de acordo com a egiptologia, os criminosos egípcios geralmente eram privados de seus narizes e orelhas (quando as centenas de açoites não bastavam) e em casos mais graves eram empalados em público sobre estacas afiadas de madeira (uma rudimentar variante da pena por crucificação dos rudes romanos). Desestimulante.

    Da mesma forma como no caso dos escaravelhos sagrados, os sacerdotes egípcios utilizaram-se também dos chamados Ushabtis como uma espécie de “gaiola”, ou “arapuca” mística, mas nesse caso a idéia era outra. Os Ushabtis tratavam-se de pequenos bonecos de cerâmica (cinco ou seis polegadas, em média) destinados a aprisionar os Kas de os escravos e demais funcionários reais destinados a servi-lo por toda a eternidade. Uma espécie de “fantoche do além”. Algo parecido com os Golens da tradição judaica, ou dos “homúnculos” da Alquimia obscura. Sei pouco sobre os Gárgulas, mas acho que pode ser que tenha algo semelhante em a natureza deles com a das esfinges, também. Ushabti significa “respondente”. O costume de se preparar a pós-vida do “faraó” em questão com serviçais á disposição chegou a tais proporções que alguns deles chegaram a ordenar que enterrassem junto a eles não mais apenas os bonecos de cerâmicas representativos: A história mostra que no Sudão um egípcio levou consigo para o “outro lado” a mais de cem “respondentes” de carne e osso. Se eles foram de livre e espontânea vontade, digo-lhe que isso é muito, muito pouco provável. Principalmente lembrando-se dos costumes e da índole de parte da antiga elite egípcia. Para encerrar o assunto dos Ushabtis colocarei como exemplo uma inscrição encontrada em um desses pequenos bonecos (que, por sinal, levava em suas costas um instrumento agrícola): “Ó Ushabti, se o nome de... (nome do defunto) for designado para cultivar a terra ou acarrear areia, fala em seu lugar e grita: Olha! Eu estou aqui! Eu o farei!”.
Os Anathemas, por sua vez, tratavam-se dos famosos “jarros vermelhos” da bruxaria egípcia. Se buscarmos paralelos para usar de comparação aos tais Anathemas, pegarei como o melhor exemplo os - mais famosos ainda - bonecos do Voodoo africano. Os Anathemas tratavam-se de fetiches místicos destinados a destruir o alvo em questão. Depois de consagrado com seus respectivos rituais e inscrições mágicas (incluindo o nome da vítima – ou vítimas), os Anathemas eram, então, destruídos. Simples magia-negra simpática.

    E, finalmente, chegamos ao nosso tema principal. Falemos sobre a Esfinge.
Famosa por haver sido utilizada por Khufu (personagem mais conhecido pelo nome grego de “Quéops”) como uma das muitas formas de intimidar a quem quisesse saquear sua gigantesca pirâmide (a maior já construída pela raça humana) e como uma das personagens secundárias de uma tragédia de Sófocles, a esfinge sempre fora um talismã muito utilizado pelo povo da Antiguidade. Principalmente pelos gregos e egípcios. Sua constituição antropomórfica representa todos os elementos - terra, ar, água e fogo - da seguinte maneira; leão para fogo, águia (ou íbis?) para ar, homem (ou bode) para terra, e peixe para água (as escamas em seu busto – na famosa esfinge de Gisé - já não são mais visíveis pelo desgaste do tempo). Da mesma forma como os Kas guardiões, a função da Esfinge é a de servir de sentinela imaterial. Ao mesmo tempo, sua estética serve também como evidência de que seu “protegido” se trata de um iniciado, ou seja, de um homem que galgou os degraus da iniciação pitagórica que no Egito fora representado pelos Sacerdotes da Lua. A serenidade da postura da esfinge demonstra as três qualidades divinas: Hu (autoridade, poder), Sai (percepção, sagacidade, sabedoria) e a maior de todas, Ma`at (justiça, ordem, harmonia, verdade e equilíbrio). Para os antigos egípcios, a única forma de o ser humano encontrar a virtude (também chamada por eles de Ank, ou “glória”, “vitória”, “vida”, e representada pelo conhecidíssimo símbolo da cruz ansata) era através de uma justiça parcial. Essa justiça era parcial, por ser ela priorizada em torno do bem e do justo. Muito diferente da “nossa” justiça, que é de tal forma imparcial que chega a ser representada por uma mulher de olhos vendados. Nessa justiça parcial egípcia, jamais um assassino serial ou um estuprador confessos seriam defendidos, como em nossa sociedade moderna normalmente o faria um advogado criminal qualquer. O homem moderno teria muito a aprender se tentasse entender o significado da palavra Ma`at e sua implicação filosófica cotidiana. Penso eu que o coração de muitos homens modernos muito dificilmente seria mais leve do que a pena de Ma`at, quando colocados sob a balança de Thoth.

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esfinge. [ Do gr. sphigx, gós, pelo lat. sphinge.] S. f. Mit. Guardião mágico em forma de um leão alado, geralmente com a cabeça de um homem, cuja suposta única chance de sobrevivência que dava a quem se aproximava de seus domínios era que decifrasse qualquer de seus enigmas.

justiça. [ Do lat. justitia.] S. f. A faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência.

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SOBRE MONOGRAFIAS E TESES

Sobre Monografias e Teses

Há alguns anos atrás (uns cinco ou seis, aproximadamente) eu estava com sérias intenções de escrever dois livros sobre dois assuntos diferentes, ambos na forma de monografia. Essas monografias seriam escritas exatamente da forma como são exigidas normalmente para um estudante de faculdade, detalhe por detalhe. E então escolhi um dos dois temas e comecei. Naturalmente, iniciei minhas pesquisas pela internet.
Conforme o tempo foi passando (e minhas pesquisas foram crescendo em quantidades de informações - e conseqüentemente, volume) comecei a me desesperar pelo fato inevitável de que as minhas pesquisas haviam se tornado um monstro em forma de quilos de papéis e centenas e centenas de milhares de parágrafos de incontáveis livros. Parece que quanto mais eu quisesse “esgotar” o tema, mais ele se ramificava em mais dezenas de sub-aspectos, que por sua vez se ramificavam novamente de maneira – aparentemente – infinita.
Isso me fez parar subitamente, em uma noite de “estudos”, e lembrar-me de um fato do passado que eu quase havia me esquecido: uma das piores brigas que eu tive com uma ex-namorada fora porque ela (que já sabia muito bem da minha exagerada compulsão pelas letras) queria que eu viesse a ler a sua tese de mestrado, cuja apenas a complexidade dogmática de seu título já me antevia que eu passaria horas e horas de especulações intermináveis e enfadonhas sobre coisa alguma. Li algumas páginas, achei tudo muito complexo – desnecessariamente – e pedante, desisti, e inevitavelmente passamos mais uma de nossas intermináveis noites de “discussão de relacionamento”.
Não sei se foi essa experiência em particular o que me causou posteriormente a minha ojeriza por retóricas, só sei que ela me impede de seguir com os meus planos de redigir essas minhas tais “monografias”. E - arrisco-me a dizê-lo – hoje em dia eu ainda acho que esse “esgotar do tema” proposto pela “monografia” acaba sendo justamente o que acaba tornando-o ineficaz como objeto de pesquisa. A meu ver, uma pesquisa bem-sucedida caracteriza-se por um estudo simples, coerente e esclarecedor sobre o assunto que for, e nenhuma pesquisa ramificada em centenas de aspectos e milhares de páginas com terminologias rebuscadas será “esclarecedora”. Ao contrário, tornará tudo ainda mais subjetivo, ou até mesmo relativo. Eu realmente duvido que os professores de faculdade cheguem a ler todas as monografias de seus alunos. Ainda mais se pararmos para pensar que pelo menos metade delas serão de qualidade duvidosa. Isso se não formos falar a respeito dos “temas” propostos pelos “estudantes”. Falo isso porque já convivi com centenas de estudantes, e já passei por muitas centenas de amargas horas escutando um recém-formando ébrio explicando-me – de forma extremamente pobre em termos argumentativos e vocabuláricos – sobre determinada monografia - ou tese - sobre assuntos tão diversos, como determinado desenho animado e “suas mensagens filosóficas implícitas”, ou qualquer outra inutilidade no mesmo estilo. Quem leria um pacote de centenas de páginas impressas discorrendo pormenorizada – e infinitamente - sobre um desenho animado em particular, e cujo autor trata-se de um jovem de seus vinte-e-poucos anos que lera (no máximo) seus trinta ou quarenta livros? Ou seja, acho que desisti de escrever as minhas monografias.
Muitas pesquisas são feitas de forma intrincada e complexa apenas para satisfazer a necessidade de auto-afirmação intelectual – muitas vezes inconsciente - do autor. O uso excessivo de jargões complexos é típico do meio jurídico e/ou financeiro (com seus “mercados futuros” como o exemplo perfeito) com a evidente intenção de limitar seu acesso á uma minoria: trata-se de um “nazismo” verbal enrustido. Mas nos casos das monografias, o uso de centenas de argumentos análogos (que apenas se repetem por outros ângulos, e com outras palavras) e descrições pormenorizadas em demasia sobre tópicos dispensáveis, visam apenas tornar o estudo “esteticamente” eficiente e abrangente. Se a teoria da Relatividade Einsteniana for explicada em três páginas, ela é indigna de substância e fé.
Ironicamente, o próprio Einstein disse uma vez em uma de suas entrevistas que a eficácia de suas descobertas (principalmente aquelas que dizem respeito á relatividade do espaço-tempo) devia-se – supostamente – á simplificação de seu raciocínio, que o levava a ver, aceitar ou entender as premissas mais básicas do universo diretamente por suas origens. Como Einstein não era capaz de entender (ou aceitar) como comuns todas as leis fundamentais da constituição da matéria em sua totalidade, teve de fazer um esforço considerável para repensá-las, e tentar explicá-las resumidamente – e de forma coerente - para si mesmo. E, então, o que poderia ser proposto e/ou explicado em milhares de páginas, Einstein resumiu em uma simples fórmula: E = m . c²
Simples, assim.



monografia. [ De mon(o)- + -graf(o)- + -ia.] S. f. Dissertação ou estudo minucioso que se propõe esgotar determinado tema relativamente restrito.

tese. [ Do gr. thésis, ‘ato de pôr’, ‘proposição’, pelo lat. these ] S. f. Proposição formulada para ser defendida em público.